Um grupo de cientistas do Reino Unido exigiu recentemente que os produtos de bacon e presunto passem a apresentar avisos de saúde semelhantes aos existentes nos maços de cigarros.
Segundo estes especialistas, estas carnes, frequentemente conservadas com substâncias químicas denominadas nitritos, representam um risco de cancro que vários governos britânicos consecutivos não conseguiram enfrentar.
Os investigadores apelam à intervenção do Governo perante a crescente evidência de que estes alimentos podem elevar o risco de cancro, sobretudo do cólon e reto (intestino). Este tipo de cancro está a aumentar, em particular entre os jovens, por razões que continuam por esclarecer, apesar da investigação crescente sobre as possíveis causas.
Nitritos no bacon e no presunto
Passou quase uma década desde que a Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC), da Organização Mundial da Saúde, classificou a carne processada como carcinogéneo do grupo 1, ou seja, existe evidência robusta de que pode provocar cancro. Esta classificação coloca-a na mesma categoria do tabaco e do amianto.
Desde então, o Governo do Reino Unido tem sido alvo de uma pressão cada vez maior para regulamentar ou proibir os conservantes carcinogénicos usados em muitas carnes processadas, incluindo bacon e presunto.
Os conservantes em causa, conhecidos como nitritos, são adicionados para manter a carne com um aspeto fresco e rosado, intensificar o sabor e evitar a deterioração. Porém, estão agora associados a dezenas de milhares de casos de cancro todos os anos no Reino Unido.
O risco resulta da forma como os nitritos atuam depois de ingeridos. No organismo, podem converter-se em compostos chamados nitrosaminas, carcinogéneos potentes que lesam o ADN, o material genético responsável por controlar o crescimento e a divisão das células.
Como as nitrosaminas podem danificar o ADN
As nitrosaminas conseguem ligar-se ao ADN no fígado, criando aductos de ADN: pequenas ligações químicas que aderem ao material genético e alteram a sua estrutura. Esta lesão pode provocar erros genéticos que, com o passar do tempo, se acumulam e permitem que as células se multipliquem sem controlo, formando tumores, sobretudo no cólon.
As nitrosaminas também podem desencadear stress nas células ao gerar moléculas nocivas designadas espécies reativas de oxigénio, que provocam danos adicionais no ADN. A combinação entre stress oxidativo e instabilidade genética pode favorecer o aparecimento e a disseminação do cancro.
Consenso científico
Os especialistas calculam que os nitritos presentes em carnes processadas tenham provocado cerca de 54 000 casos de cancro colorretal no Reino Unido ao longo dos últimos dez anos. Desde a classificação da IARC, em 2015, o consenso científico que sustenta esta ligação tornou-se ainda mais forte.
Estudos recentes continuam a confirmar uma associação clara entre o consumo de carne processada e um risco acrescido de cancro colorretal. Outras investigações alargaram estas preocupações ao cancro da mama, concluindo que as mulheres que consomem carne processada semanalmente enfrentam um risco significativamente superior ao das que não a consomem.
O risco mais elevado está associado às carnes tratadas com nitritos. Em resposta, a União Europeia reforçou as regras, reduzindo os níveis autorizados de nitritos nas carnes processadas. A UE pretende assumir a liderança em segurança alimentar e prevenção do cancro, incentivando a utilização de alternativas mais seguras.
As associações da indústria alimentar que se opõem à proibição dos nitritos defendem que a sua eliminação poderia tornar os alimentos menos seguros, ao aumentar o risco de contaminação bacteriana.
Muitos cientistas e especialistas em segurança alimentar discordam. Consideram que, com os atuais padrões de refrigeração e higiene, é perfeitamente viável produzir carnes curadas seguras e com longa duração sem nitritos.
Os produtores europeus já comercializam carne sem nitritos em grande escala, sem que tenham sido registados, durante décadas, surtos de intoxicação alimentar associados a estes produtos. Isto põe em causa a ideia de que os nitritos são indispensáveis para a segurança dos alimentos.
De modo geral, os cientistas especializados em alimentos entendem que a inovação pode proteger a saúde pública sem comprometer a qualidade e o sabor. Ainda assim, o debate ultrapassa a tecnologia alimentar: levanta questões mais amplas sobre o equilíbrio que os governos devem encontrar entre a segurança dos consumidores, os interesses da indústria e as prioridades de saúde pública.
Um apelo à ação preventiva
Os defensores da mudança afirmam que o Governo deve assumir uma responsabilidade mais firme, eliminando gradualmente os aditivos nocivos e melhorando a rotulagem alimentar, para que os consumidores possam fazer escolhas informadas. Argumentam que, após o Brexit, o Reino Unido ficou atrás da UE em matéria de normas de segurança alimentar, onde já foram introduzidos controlos mais rigorosos sobre os nitritos.
Do ponto de vista da saúde pública, carcinogéneos alimentares como os nitritos constituem uma causa evitável de cancro. Reduzir a exposição poderia diminuir significativamente a carga nacional da doença e aliviar a pressão sobre os sistemas de saúde.
A alimentação tem um papel central no risco de cancro e em problemas associados, como a obesidade. Reduzir o consumo de carnes processadas e apoiar métodos de produção mais seguros seria um avanço importante, tanto para a saúde individual como para a saúde pública.
A mensagem dos investigadores é inequívoca: as carnes processadas que contêm nitritos apresentam um risco de cancro significativo e bem documentado. Com o reforço da evidência científica e da consciencialização pública, existe agora uma pressão real sobre os decisores políticos para que atuem.
Proibir ou eliminar gradualmente estes aditivos carcinogénicos, introduzir avisos sobre cancro nas embalagens e apoiar os produtores na transição para alternativas mais seguras poderia salvar milhares de vidas.
Justin Stebbing, Professor de Ciências Biomédicas, Universidade Anglia Ruskin
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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