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Como o sistema imunitário reconhece os alimentos seguros

Criança a comer uma tosta com manteiga de amendoim numa cozinha, com leite, frutos secos e livro aberto.
Neste artigo
  1. Como o organismo toma esta decisão
  2. O papel das células T reguladoras
  3. A reação do organismo aos alimentos
  4. Porque surgem as alergias alimentares
  5. A descoberta dos sinais de tolerância
  6. Onde atuam estas células imunitárias
  7. Um futuro sem alergias alimentares?
  8. Próximas linhas de investigação

Quando alguém come uma refeição ou prova um lanche, como sabe o organismo que uma bolacha é alimento e não uma ameaça? Em cada uma destas ocasiões, o sistema imunitário tem de tomar uma decisão importante.

Pode aceitar o alimento ou encará-lo como algo perigoso. Na maioria das situações, o organismo escolhe corretamente e deixa que os alimentos avancem em segurança pelo processo digestivo. Os cientistas chamam tolerância oral a este mecanismo.

Um novo estudo, liderado por cientistas da Universidade de Stanford, ajudou a esclarecer o funcionamento deste processo. Os investigadores identificaram pequenas partes das proteínas dos alimentos que indicam ao sistema imunitário que deve manter-se tranquilo.

Esta descoberta contribui para explicar como o organismo reconhece muitos alimentos como seguros e poderá orientar novos tratamentos para alergias alimentares.

Como o organismo toma esta decisão

Os alimentos entram no organismo várias vezes por dia. Apesar desta exposição contínua, o sistema imunitário, em geral, não ataca aquilo que comemos. Em vez disso, aprende a tolerá-lo.

A equipa de investigação procurou perceber como o organismo decide preservar este equilíbrio, essencial para que a digestão decorra sem problemas e para evitar reações nocivas.

A Dra. Jamie Blum, autora principal do estudo, realizou esta investigação em Stanford e juntou-se mais tarde ao Salk Institute.

Os investigadores encontraram fragmentos específicos de proteínas alimentares que comunicam com as células imunitárias. Estes fragmentos ajudam essas células a compreender que determinados alimentos são inofensivos.

O papel das células T reguladoras

O sistema imunitário é composto por muitos tipos de células que colaboram na proteção do organismo. Um grupo particular ajuda a impedir ataques imunitários desnecessários: as células T reguladoras.

As células T reguladoras funcionam como mediadoras da paz. Em vez de desencadearem inflamação, acalmam o sistema imunitário. Esta ação permite ao organismo tolerar substâncias inofensivas, como os alimentos.

Os cientistas já sabiam que as células T reguladoras têm um papel importante na tolerância oral. Contudo, ainda não se sabia que proteínas dos alimentos ativavam esta resposta.

A reação do organismo aos alimentos

A equipa de Stanford procurou respostas ao estudar a forma como as células T reguladoras reagem às proteínas alimentares. Os resultados ajudaram a revelar quais os sinais que orientam o sistema imunitário para a tolerância, em vez da rejeição.

“Para alguém interessado em ciência fundamental, é importante compreender um processo imunitário normal, bem como a patologia”, afirmou a Dra. Blum.

“Compreender como o sistema imunitário consegue normalmente considerar uma proteína segura pode levar a novas terapias para promover a tolerância em pessoas com alergia.”

Porque surgem as alergias alimentares

As alergias alimentares acontecem quando o sistema imunitário interpreta erradamente um alimento como uma ameaça. Em vez de o aceitar, desencadeia uma reação de defesa.

Cerca de seis por cento das crianças e até quatro por cento dos adultos têm alergias alimentares. Entre os desencadeantes frequentes encontram-se os amendoins, os ovos, a soja e outros alimentos.

Numa reação alérgica, o sistema imunitário classifica determinadas proteínas dos alimentos como prejudiciais. Os anticorpos reconhecem essas proteínas e ativam células imunitárias, como mastócitos e basófilos. Estas células libertam substâncias químicas que provocam inflamação e sintomas alérgicos.

Os cientistas já identificaram muitas proteínas capazes de desencadear alergias. No entanto, sabia-se muito menos sobre as proteínas que favorecem a tolerância.

A descoberta dos sinais de tolerância

Para resolver este enigma, os investigadores começaram por uma abordagem simples. A equipa estudou ratinhos alimentados com uma dieta normal e examinou depois as células T reguladoras para determinar que proteínas alimentares reconheciam.

A investigação revelou três pequenos fragmentos proteicos, denominados epítopos. Cada epítopo provinha de um alimento vegetal diferente: um foi encontrado no milho, outro no trigo e o terceiro na soja.

Os três fragmentos eram provenientes de proteínas de sementes. Estas proteínas existem em grande quantidade em muitos alimentos de origem vegetal. A descoberta sugere que o sistema imunitário aprende frequentemente a tolerar alimentos ao reconhecer estas proteínas vegetais comuns.

O milho provocou a resposta mais forte nas células T reguladoras. Este resultado é coerente, pois o milho raramente causa alergias. As alergias à soja são mais frequentes, pelo que a identificação de um epítopo da soja oferece uma pista promissora para futuras investigações.

Os investigadores identificaram ainda algo inesperado: o recetor que reconhece o fragmento proteico da soja também consegue interagir com proteínas de sésamo.

Esta ligação pode explicar por que motivo a tolerância a um alimento conduz, por vezes, à tolerância a outro.

Onde atuam estas células imunitárias

O estudo analisou também os locais onde as células T reguladoras desempenham a sua função. Experiências com ratinhos e culturas de células em laboratório ajudaram a responder a esta questão.

Os resultados mostraram que muitas células T reguladoras vivem no intestino. Esta localização coloca-as precisamente no ponto onde os alimentos entram no organismo.

O ambiente intestinal também influencia o comportamento destas células. Num intestino saudável, as células T reguladoras ajudam a manter condições calmas, com pouca inflamação. Quando surge inflamação, atuam para a reduzir e restabelecer o equilíbrio.

Esta resposta flexível permite que o sistema imunitário se adapte ao que acontece no sistema digestivo.

Um futuro sem alergias alimentares?

A identificação destes epítopos alimentares abre novas possibilidades para o tratamento de alergias. Os cientistas já consideram as células T reguladoras uma ferramenta promissora para futuras imunoterapias.

No futuro, os investigadores poderão conceber células T reguladoras que reconheçam proteínas alimentares específicas e promovam a tolerância. Estes tratamentos poderiam reduzir reações alérgicas ou até preveni-las.

“A alimentação é a nossa interação mais íntima com o ambiente”, afirmou a Dra. Blum.

“Reconhecer corretamente os alimentos como seguros cria um ambiente anti-inflamatório que favorece a aquisição de nutrientes e previne a alergia.”

“A nossa investigação aprofunda o conhecimento científico sobre os principais alergénios alimentares e aponta para futuras intervenções terapêuticas capazes de redirecionar estados alérgicos e autoimunes.”

Próximas linhas de investigação

Os cientistas esperam agora aplicar esta investigação em seres humanos. A equipa já criou um reagente especial que permite acompanhar estas proteínas alimentares.

Outros investigadores podem agora utilizar esta ferramenta para explorar a tolerância oral com maior detalhe.

Cada refeição pode parecer simples, mas, longe da vista, o sistema imunitário executa uma tarefa extraordinária.

As novas descobertas aproximam a ciência da compreensão de como o organismo aceita pacificamente os alimentos que sustentam a vida.

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Margarida Leal

Margarida Leal é gastrónoma e comunicadora especializada em cozinha portuguesa, produtos do mar e valorização da gastronomia costeira. Interessada em receitas de polvo, marisco e tradições culinárias nacionais, partilha conteúdos sobre ingredientes, técnicas de preparação e experiências à mesa.

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