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O atum-rabilho recordista de Toyosu e o futuro do Pacífico

Homem de fato observa atum gigante numa mesa enquanto grupo fotografa e grava o momento numa sala.
Neste artigo
  1. O negócio recordista que surpreendeu até o comprador
  2. Porque os leilões de atum de Ano Novo têm tanta importância no Japão
  3. A questão da sustentabilidade por detrás do espectáculo
  4. Luxo, identidade e a tensão moral no prato
  5. O que observar a seguir no atum-rabilho do Pacífico

Todos os janeiros, o leilão de peixe mais acompanhado do Japão transforma um único atum num espectáculo nacional. Este ano, uma licitação recordista de um magnata do sushi voltou a levantar questões sobre luxo, sustentabilidade e o futuro do peixe mais valioso do Pacífico.

O negócio recordista que surpreendeu até o comprador

No mercado de peixe de Toyosu, em Tóquio, pouco depois de amanhecer, os pregões dos leiloeiros ecoavam nas paredes metálicas enquanto os compradores disputavam o lote principal: um enorme atum-rabilho do Pacífico com 243 quilogramas. A proposta vencedora foi apresentada por Kiyoshi Kimura, o exuberante proprietário da cadeia de restaurantes Sushi Zanmai, que se autointitula o «Rei do Atum» do Japão.

Kimura pagou 510,3 milhões de ienes - cerca de 2,8 milhões de euros, ou aproximadamente 2,4 milhões de libras / 3,1 milhões de dólares - por um único peixe. Os dados acompanhados desde 1999 não registam qualquer preço mais elevado para um atum no Ano Novo. Até Kimura, conhecido por despesas que garantem manchetes, pareceu surpreendido.

«Pensei que talvez o conseguíssemos por um pouco menos, mas o preço disparou antes de eu dar por isso», declarou Kimura após o leilão, acrescentando que o atum serviria para «revigorar» o maior número possível de clientes.

Pescado ao largo da costa nordeste do Japão, o atum será fatiado e servido como as apreciadas peças de otoro e chutoro nos estabelecimentos Sushi Zanmai. Em troca de prestígio e publicidade, a empresa aceita margens de lucro muito inferiores, ou até prejuízos.

Porque os leilões de atum de Ano Novo têm tanta importância no Japão

O leilão de Ano Novo tornou-se uma espécie de barómetro económico e cultural não oficial no Japão. Realiza-se em Toyosu, o mercado moderno que substituiu o histórico mercado de Tsukiji, transferido em 2018 do centro de Tóquio para instalações maiores e mais regulamentadas em terrenos conquistados à baía de Tóquio.

Tradicionalmente, o primeiro leilão do ano combina negócio e simbolismo. Os compradores encaram o atum vencedor como um amuleto de boa sorte para os meses seguintes. Um valor elevado pode ser interpretado como uma demonstração de confiança, ou mesmo de ousadia, por parte dos principais intervenientes dos sectores da restauração e do comércio grossista.

O preço recorde não corresponde ao verdadeiro valor de mercado do atum; funciona antes como um investimento de marketing muito visível, um sinal de estatuto e optimismo difundido pelos meios de comunicação japoneses.

Neste sentido, o espectáculo pesa mais do que os números. Nos dias seguintes à venda, os clientes fazem fila nas lojas Sushi Zanmai para provar uma fatia do famoso peixe, por preços que permanecem frequentemente relativamente moderados, tendo em conta o montante pago pela empresa para o garantir.

Recordes anteriores e o custo crescente do prestígio

O leilão deste ano ultrapassou o anterior máximo de 333,6 milhões de ienes, alcançado em 2019 por um atum-rabilho ligeiramente mais pesado, com 278 quilogramas. Esse recorde anterior coincidiu com o primeiro leilão de Ano Novo em Toyosu depois da mudança de Tsukiji, atraindo uma intensa atenção mediática.

O lote mais caro do ano passado, também um enorme atum-rabilho, foi vendido por 207 milhões de ienes - já um montante impressionante, mas muito abaixo do novo recorde. A subida acentuada demonstra até que ponto o leilão de Ano Novo segue uma lógica distinta do restante mercado de marisco e pescado, onde a maior parte do atum-rabilho é negociada por valores muito inferiores.

  • 2024: 510,3 milhões de ienes por 243 kg
  • 2019: 333,6 milhões de ienes por 278 kg
  • 2023: 207 milhões de ienes por 276 kg

Estes picos ocasionais de licitação alimentam uma sensação de rivalidade entre os grandes grupos de restauração e os grossistas, receosos de perderem prestígio no evento de produtos do mar mais visto do ano.

A questão da sustentabilidade por detrás do espectáculo

Por trás do glamour, cientistas e activistas acompanham com prudência os stocks de atum-rabilho do Pacífico. A espécie enfrenta há muito uma forte pressão da pesca, sobretudo por parte do Japão, que consome a maioria das capturas mundiais em sushi e sashimi.

Durante anos, grupos ambientalistas alertaram que o atum-rabilho do Pacífico estava próximo do colapso, numa altura em que a forte procura de sushi de gama alta se conjugava com uma gestão insuficiente e quotas permissivas. Segundo defensores da conservação, essa situação começa agora a mudar.

«A população de atum-rabilho do Pacífico está a recuperar depois de ter estado à beira do colapso», afirmou Dave Gershman, da Pew Charitable Trusts, saudando os sinais de que um plano de recuperação de 2017 está a produzir resultados.

O plano, acordado em 2017 pelas nações que pescam no Pacífico, introduziu controlos mais rigorosos sobre os limites de captura, em especial para os peixes juvenis, e procurou recuperar os stocks ao longo de várias décadas. Os dados de monitorização apontam para uma tendência ascendente, embora os números continuem muito abaixo dos níveis históricos.

Gershman e outros especialistas defendem que o actual enquadramento deve ser reforçado, não flexibilizado. Decisões importantes são esperadas em 2026, quando os governos poderão consolidar os progressos ou arriscar um regresso à sobrepesca.

O que os números do atum-rabilho do Pacífico realmente mostram

O atum-rabilho do Pacífico representa uma pequena parcela das capturas globais de atum em volume, mas concentra uma parte desproporcionada do seu valor. A espécie amadurece lentamente e desloca-se por vastas áreas, o que a torna vulnerável a uma má gestão.

Indicador Situação aproximada
Nível histórico do stock Fortemente reduzido face às estimativas anteriores à industrialização
Tendência desde o plano de 2017 Melhoria gradual, sobretudo na sobrevivência dos juvenis
Risco principal Quotas mais permissivas quando os preços e as capturas recuperarem
Próximo marco Revisão das políticas e novas medidas esperadas em 2026

Os preços recorde, muito divulgados e registados uma vez por ano, não provocam por si só a redução dos stocks. A verdadeira pressão resulta do enorme volume da pesca regular, de menor valor, em todo o Pacífico. Ainda assim, estes leilões que chegam às manchetes podem transmitir sinais confusos, sugerindo abundância e normalidade precisamente quando os cientistas pedem prudência.

Luxo, identidade e a tensão moral no prato

Quando um único peixe custa mais do que muitas casas, o debate depressa ultrapassa a ciência das pescas. Os críticos consideram estas vendas um símbolo de desigualdade e desperdício. Os defensores respondem que o leilão de Ano Novo é um ritual cultural e uma estratégia publicitária inteligente que ajuda a manter vivos os mercados tradicionais.

Kimura apresenta as suas compras como uma oferta, não apenas aos clientes, mas também a um público mais vasto que procura sinais de boa fortuna no início do ano. Para os seus apoiantes, uma peça de atum-rabilho raro partilhada com desconhecidos representa uma pequena forma, muito japonesa, de solidariedade, nascida de um acto de consumo ostensivo.

Já os cépticos questionam se estas demonstrações são compatíveis com os alertas sobre a sobrepesca e o impacto climático nos oceanos. Para os consumidores japoneses mais jovens, que já comem menos peixe do que os seus pais, pagar milhões por um único atum pode parecer desalinhado das actuais realidades económicas mais prudentes.

Como isto afecta os clientes comuns

A maioria das pessoas que provará este peixe recordista pagará um preço normal de restaurante, por vezes até um preço reduzido. A Sushi Zanmai costuma aproveitar a publicidade para atrair filas de clientes e mantém depois os preços muito abaixo do custo real de cada fatia.

Este modelo empresarial transforma o atum num orçamento de marketing. A empresa suporta a despesa em troca de visibilidade para a marca e fidelização, apostando que os clientes atraídos por uma porção económica de atum-rabilho regressarão mais tarde para refeições habituais.

Para os clientes no estrangeiro, esta história pode influenciar a percepção do marisco e pescado japoneses. Os leilões muito divulgados, aliados a programas de televisão e vídeos nas redes sociais, alimentam o fascínio pelos balcões de omakase e pelos pratos brilhantes de atum gordo. Esse fascínio reforça a procura global, que tanto pode apoiar pescarias cuidadosamente geridas como enfraquecê-las se os controlos falharem.

O que observar a seguir no atum-rabilho do Pacífico

O plano de recuperação de 2017 está no centro do actual optimismo cauteloso entre os defensores da conservação. Se os governos mantiverem ou reforçarem as regras, o stock poderá recuperar gradualmente para níveis que sustentem tanto a saúde dos oceanos como a pesca a longo prazo.

Várias questões práticas determinarão esse futuro:

  • As quotas manter-se-ão rigorosas se os grupos do sector defenderem capturas maiores à medida que os preços sobem?
  • Conseguirão os reguladores eliminar lacunas, incluindo a pesca ilegal e não declarada?
  • Com que rapidez aceitarão consumidores e chefs espécies alternativas quando o atum-rabilho for escasso ou caro?

Alguns fornecedores japoneses experimentam atum-rabilho de aquicultura e de engorda, capturando juvenis para os alimentar em viveiros. Esta abordagem reduz a pressão sobre os peixes selvagens maiores, mas continua a depender da retirada de atuns jovens do mar. Os cientistas defendem que um verdadeiro alívio para o stock exige simultaneamente capturas totais menores e melhor protecção das zonas de criação.

Para quem aprecia sushi, uma medida prática passa por prestar atenção aos rótulos e fazer perguntas. Perguntar a origem do atum, ou escolher restaurantes que falam abertamente sobre o abastecimento, pode encaminhar o mercado para fornecedores mais responsáveis. Os chefs que transferem parte do menu para o gaiado, o voador ou outras espécies menos pressionadas também ajudam a distribuir a procura.

O peixe recordista deste ano em Toyosu demonstra que o prestígio e a tradição continuam a ter um peso enorme no comércio japonês de produtos do mar. Nos próximos anos, o teste decisivo será saber se a mesma energia poderá apoiar decisões que deixem atum-rabilho suficiente na água para futuros leilões de Ano Novo, em vez de transformarem o espectáculo de hoje na memória de amanhã.

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Margarida Leal

Margarida Leal é gastrónoma e comunicadora especializada em cozinha portuguesa, produtos do mar e valorização da gastronomia costeira. Interessada em receitas de polvo, marisco e tradições culinárias nacionais, partilha conteúdos sobre ingredientes, técnicas de preparação e experiências à mesa.

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